POEMAS

Alguns Poemas e versos de nossos inesquecíveis autores da Literatura Brasileira e Portuguesa

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::Assim eu vejo a vida::

::Cora Coralina::

A vida tem duas faces:
Positiva e negativa
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo
Aprendi a viver.



::Cartas de amor::

::Fernando Pessoa::

Todas as cartas de amor são ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem ridículas.
Também escrevi, no meu tempo, cartas de amor como as
outras, ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser ridículas.
Quem me dera o tempo, em que eu escrevia
sem dar por isso, cartas de amor, ridículas
Afinal, só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são ridículas...



::Amor é fogo que arde sem se ver::

::Luís de Camões::

Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;

É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?



::E preciso não esquecer nada::

::Cecilia Meireles::

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos
a idéia de recompensa e de glória

O que é preciso é ser como se já não fôssemos

vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.



::Tema e Voltas::

::Manuel Bandeira::

Mas para quê
tanto sofrimento
se nos céus há o lento
deslizar da noite?

Mas para quê
tanto sofrimento
se lá fora o vento
é um canto na noite?
Mas para quê
tanto sofrimento
se agora, ao relento
cheira a flor da noite?

Mas para quê
tanto sofrimento
se o meu pensamento
é livre na noite?



::Do Desejo::

::Hilda Hilst::

Que canto há de cantar o que perdura?
A sombra, o sonho, o labirinto, o caos
A vertigem de ser, a asa, o grito.
Que mitos, meu amor, entre os lençóis:
O que tu pensas gozo é tão finito
E o que pensas amor é muito mais.
Como cobrir-te de pássaros e plumas
E ao mesmo tempo te dizer adeus
Porque imperfeito és carne e perecível
E o que eu desejo é luz e imaterial.
Que canto há de cantar o indefinível?
O toque sem tocar, o olhar sem ver
A alma, amor, entrelaçada dos indescritíveis.
Como te amar, sem nunca merecer?



::Ciclo::
::Olavo Bilac::

Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,
Promessa ardente, berço e liminar:
A árvore pulsa, no primeiro assomo
Da vida, inchando a seiva ao sol... Sonhar!
Dia. A flor - o noivado e o beijo, como
Em perfumes um tálamo e um altar:
A árvore abre-se em riso, espera o pomo,
E canta à voz dos pássaros... Amar!

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo;
A árvore maternal levanta o fruto,
A hóstia da idéia em perfeição... Pensar!

Noite. Oh! Saudade!... A dolorosa rama
Da árvore aflita pelo chão derrama
As folhas, como lágrimas... Lembrar!



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